Um pedido de desculpas agora cai bem. Nada daquilo de implorar, me jogar no chão e me arrepender de tudo que disse ou fiz, você sabe que isso não funciona comigo. Mas um daqueles silenciosos, feito pelos olhos e logo depois pelo sorriso tímido, vergonhoso. E reprimir o orgulho também fará bem, reconhecer os erros cometidos e entender que eles possam vir a ocorrer mais uma vez, num daqueles momentos de raiva em que você esbraveja toda tua ira em palavras amargas direcionadas a mim. Mas, saber aceitar e compreender esses fatos me tem feito um bem imenso nos últimos dias. Devo confessar que isso não veio de mim, não veio do nada. Se não fosse aquela aula de deontologia ao ar livre, com todas as definições de virtudes, talvez eu jamais teria reconhecido meu orgulho sujo e minha podridão interna só aumentaria com o passar dos dias. Mas eu reconheci, e agora já posso sorrir de novo. Sabe, estou até pensando em comprar um presente! Algo pequeno, carinhoso, meu, teu, coisa de mãe e filha mesmo. Voltar a sentar contigo naquelas tardes chuvosas e deixar você tocar meu coração com as historias bonitas que sempre conta. Me desculpe, mãe. Eu sei que nem sempre sou uma boa filha. Ser tao gélida quando você é tao cálida por puro orgulho meu não é tão fácil quanto parece. Mas acredite em mim, estou contigo agora. Não da forma que estava antes, perto mas tão distante. Estou contigo para que você finalmente possa ter alguém em quem confiar sem temer que tudo mude, se desmanche e termine só, como já aconteceu tantas vezes. Eu te amo mais do que poderia reconhecer nesses últimos meses em que estivemos tão irreconhecíveis. Quero estar contigo pra sempre, mesmo que as tuas palavras voltem a me marcar a ferro e fogo. Talvez até me faça bem um pouco de calor, para derreter esse mar de gelo que costumo ser.
Olá, solidão. Pode entrar, já sabe que nem precisa mais bater a porta. Já és de casa. Sente-se no sofá vermelho da sala e faça como sempre, me observe de longe com toda a tua crueldade e ironia. Quase pensei que tivesses partido e, sem querer ofender, estive contente por isso, mesmo sabendo que voltarias assim que eu permitisse. Bom, sobre o que vamos conversar? Bem, poderíamos começar sobre aquela noite de terça-feira que voce foi a única que me ouviu chorar. Sabe, minha cara, aquela noite eu prometi que seria mais corajosa e não veria mais o mundo com olhos de menina, e sim com os de uma mulher. Mas eu fracassei, como o bem podes ver. Se não tivesse fracassado, não estaria sentada tomando um chá e escrevendo coisas tristes. Talvez estaria por aí, passeando, procurando um bom lugar para ler um bom livro, e não trancada nessa sala afogando minha mágoa em uma mera xícara de chá. Aliás, porque sempre chá? Talvez seja o seu calorzinho e seu gostinho de saudade, ou não. Solidão, pretendes ficar aqui por muito tempo? Mesmo sabendo que você viria, não arrumei a casa e a cozinha continua cheia de louças. O chão do meu quarto está repleto de roupas sujas e alguns outros objetos não identificados. Não tenho andado muito bem, espero que ao menos sejas compreensiva em relação a isso. Tenho algo para lhe contar, nesse tempo em que estivestes ausente eu quase esqueci o que era tristeza. Sei que soa estranho vindo de mim, mas eu sorri de verdade, com os olhos e com o coração. Meu peito estava aquecido em pleno frio gélido no meio da noite pelas ruas dessa cidade que já nem me parecia mais tão decadente. E, para impressionar-te ainda mais, até chamei alguns amigos para passear um pouco. Viu só? Eu não sou o tempo todo tão depressiva. Mas querendo ou não, voce sempre volta, sempre me pega desprevenida e nos momentos mais instáveis. Sempre sabes quando estou precisando das palavras daquela minha prima que você não gosta só porque ela tem o dom de me fazer feliz com apenas um olhar. E então você bate na minha porta, convido-te para que entres e sentes no meu sofá vermelho, ofereço-te uma xícara de chá e passamos a noite toda relembrando os motivos pelos quais eu deveria desistir de tudo e me enforcar com uma corda pendurada na árvore ali da esquina. Mas, porque sempre chá? Não é seu calorzinho, e muito menos o seu gostinho de saudade. E já não importa, vou encher uma xícara a mais.
Hoje a noite é completamente minha e eu sou totalmente dela. Me deixei levar pela escuridão das ruas fazendo uma combinação perfeita com a negritude da minha alma. O vento frio quase aquecia o gelo que eu sou por dentro. Desejei muito fazer algo diferente, e riscar a pele, furar a língua, rasgar minha calça e tirar um pedaço do cabelo não tem nada a ver com essa vontade, como normalmente o é. O que sou por fora não condiz praticamente em nada com o que existe dentro de mim. Desejei viver toda a minha vida em segundos para depois logo terminar com ela, mas não esta noite. Esta noite é minha, só minha e não vou deixar que ela termine assim. Algo deve ser feito. Rápido, urgente, agora. E eu não sei mesmo escrever coisas alegres, bonitas e cheias de palavrinhas cintilando rosa o que é podre. Eu sou podre, morta, acabada. Só conheço essa dualidade de tudo, de nada, do que existe e do que só há na minha imaginação. Bizarrice mesmo, coisas estranhas, ocultas, um tanto quanto misteriosas. E eu só sei ser assim, não existo em outro jeito. Sempre indo de lá para cá com os pés quase grudados no chão e os pensamentos do outro lado da fronteira, num quarto de paredes riscadas e rabiscadas, frio, lindo, bagunçado, assustadoramente meu. Minha amiga perguntou se eu queria mesmo ir embora antes de eu dar as costas, descer as escadas e ela fechar a porta. Eu nunca quero ir, mas sempre vou. Nunca quero ser nada, mas sempre acabo sendo tudo em mim. Mas essa noite, eu sou tudo sendo nada. Te confundo? Além de eu não saber contar histórias felizes, não sei ser clara o suficiente. E talvez (sempre o talvez) nada possa ser feito em relação a minha pessoa, eterna tradutora dos seus próprios erros. E, pra falar a verdade, nem acho mais que essa noite seja tão minha quanto eu sou dela.




